Qualidade do Transporte Público [Parte 1]

Hoje o blog inaugura uma série de postagens sobre qualidade do transporte público. A intenção é a de popularizar o tema, sendo escrito numa linguagem mais pessoal e para que seja acessível mesmo àqueles que não estão acostumados a ler sobre o assunto.

Neste início de ano, muitos sistemas de transporte público no Brasil anunciaram aumento da tarifa. Em períodos como este sempre vem à tona o tema da (má) qualidade do transporte público, e o problema, que sempre esteve ali, mas que é gradualmente posto em segundo plano à medida que as pessoas vão se “acostumando” com o padrão de qualidade vigente, passa a ser uma das pautas principais em muitas discussões. As motivações mais comuns para o debate denunciam as situações de “injustiça” – argumentando que o valor da tarifa é alto demais para o poder aquisitivo dos usuários – e de “abuso” – quando o valor da tarifa é alto demais para a qualidade do serviço (ver Mobilidade Urbana, o que você precisa saber, de Eduardo Alcântara de Vanconcellos).

Mas, afinal, o que é qualidade? O que é qualidade do transporte público? Como saber se um determinado serviço de transporte público é de boa qualidade? Por antecipação, advirto ao leitor que estas perguntas não são fáceis de responder, pois várias definições já foram e continuam sendo dadas e ainda há muitos estudos em andamento sobre o tema. As linhas que se seguem são um esforço de síntese que busca discutir, brevemente, os pontos que considero principais.

Quase todo mundo tem uma noção sobre o que é qualidade, geralmente associada à satisfação com algo ou alguém. Neste sentido, se não causa satisfação, não é de boa qualidade. Em primeiro lugar, é importante entender que qualidade, em seu plano mais geral, é algo subjetivo, ou seja, diferentes pessoas podem ter diferentes impressões sobre a qualidade. Contudo, entendida desta maneira em qualquer situação específica, a busca pela qualidade torna-se algo inalcançável, afinal, como diz o adágio, “não se pode agradar a todos”. Por isso, é importante que existam parâmetros objetivo-quantitativos que auxiliem a definição de um determinado produto ou serviço como de boa ou má qualidade. Assim, a qualidade pode ser medida.

Em segundo lugar, a qualidade é algo multidimensional, no sentido de que a sua medição é realizada a partir de vários aspectos, e não apenas de um (ainda que a união de todos estes possa gerar uma avaliação geral). Por exemplo, no caso do transporte público, aspectos como acessibilidade, conservação dos veículos, lotação e tempo de viagem são apenas alguns dos que podem ser considerados, cada um com uma avaliação diferente. Um serviço pode ter ótima acessibilidade, mas operar com níveis de lotação muito altos. Os veículos podem ser velozes, mas serem sujos e mal conservados.

Mas quem mede a qualidade? Com base em que ou quem a medição é realizada? Pode-se dizer que o entendimento mais aceito é que a medição da qualidade deve estar centrada no cliente. É a adequação do produto/serviço ao uso. No transporte público, então, o usuário do serviço é a chave principal na avaliação da qualidade. Para isso, questionários onde os usuários podem emitir juízo de valor sobre o serviço são os instrumentos de medição mais comuns.

Mas qualidade não é só isso. Também é importante levar em consideração parâmetros técnicos. Por exemplo, quais as recomendações encontradas na literatura técnica quanto à distância mínima entre pontos de parada, quanto à frequência de atendimento (intervalo entre passagem consecutiva de veículos), quanto à velocidade média comercial e operacional, quando ao número de passageiros por metro quadrado no espaço interno do veículo, quanto à segurança (acidentes, assaltos, etc.), quanto à disponibilidade de informações sobre o serviço, etc. Aliando esta perspectiva, de cunho mais técnico, àquela baseada na opinião dos usuários, a avaliação da qualidade pode cumprir melhor a função de identificar as partes deficientes do sistema e, assim, direcionar adequadamente os investimentos e intervenções que visem à melhoria do serviço.

Esta foi uma introdução ao tema. Na segunda parte desta série de postagens o assunto será mais focado na qualidade do transporte público e suas especificidades.

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3 respostas para “Qualidade do Transporte Público [Parte 1]”

  1. Ótimo! Gostei da iniciativa! Não esqueça de argumentar sobre a sujeira; não percebo que os ônibus foram limpos, sempre estão sujos. Antigamente limpavam… Obrigado!

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    1. Prezado André Farias, obrigado por comentar. Muito pertinente sua colocação. Creio que estás se referindo ao sistema de João Pessoa. Mas esta série de postagens não avaliará a qualidade de sistemas específicos. Trata-se de uma abordagem mais geral, de cunho teórico. Oportunamente, claro, poderão ser dados exemplos.
      Atualmente estou na fase final de uma pesquisa que, esta sim, avalia a qualidade do sistema de transporte público por ônibus de João Pessoa em específico. Tenho a intenção de, quando concluí-la, postar algumas resenhas sobre.
      Abraço.

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  2. Muito bom o post, no entanto há uma serie de fatores que precisam ser reeducados para se poder chegar a informações e críticas construtivas para quaisquer serviços, a exemplo a educação sócio/cultural das pessoas, que, pegando o comentário do nosso colega André Farias como exemplo, obviamente não dizendo que seja esse o seu caso, pessoas que jogam lixo nas ruas, um saquinho de din din, um tablóide de loja, entre outras coisas, e reclamam das vias, da sujeira, da imundície. Considero bom nosso sistema, o problema somos nós.

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