Como Estudar a Vida Pública: Técnicas de Análise

No livro How to Study Public Life (Como Estudar a Vida Pública, em tradução livre), os autores Jan Gehl e Birgitte Svarre mostram a história dos estudos sobre interações sociais, métodos e técnicas para melhorar a vitalidade dos espaços públicos e atrair mais pessoas a usa-los, mostrando a importância desta vitalidade para o planejamento urbano. O capítulo 3 do livro trata das ferramentas para análise dessas interações sociais.

É necessário, antes de começar a analisar o espaço público, identificar o propósito, recursos, tempo e condições locais para poder escolher quais ferramentas utilizar. Cada ferramenta possui objetivos específicos, e é utilizada para obter dados diferentes. Portanto, usar uma única ferramenta não é uma boa opção, pois vai limitar os dados obtidos.

A escolha do dia de análise, bem como as condições climáticas e horário são fundamentais, e devem ser definidas de acordo com o contexto local. Uma área com vida noturna bastante ativa deve ser, portanto analisada no período da noite, enquanto que uma área residencial deve ser analisada durante o dia. Além disso, deve-se observar se a análise será feita em um dia da semana, no fim de semana ou em feriados: Nos dois últimos casos, há mudanças significativas nos padrões das atividades sociais.

Os métodos e ferramentas de registro podem ser manuais ou automatizados, e podem variar de custo financeiro e de mão de obra. A maioria dos estudos podem ser feitos de forma analógica, utilizando ferramentas tradicionais, como prancheta, papel e lápis, sem a necessidade de um especialista ou de muitos recursos financeiros. Por outro lado, ferramentas digitais permitem analisar uma gama maior de informações, mas requerem investimento em equipamentos e mão de obra qualificada para usa-los. Tenha em mente que a melhor ferramenta é aquela que você poderá usar dentro de suas condições.

Gehl e Svarre (2013) descrevem 8 técnicas que podem ser aplicadas aos estudos de espaços públicos:

1- Contagem (Counting)

Uma das ferramentas mais básicas para análise comportamental, tem como objetivo quantificar aspectos ou fenômenos que estão ocorrendo: número de pessoas, idade, gênero, tipo de interação (passagem ou permanência), grupos de pessoas, mobiliário urbano, entre outros.

No caso de realizar contagem de fluxo de pessoa, é interessante usar a técnica do portal (gate): o observador posiciona-se de frente para o espaço público estudado e faz a contagem quando alguém passa diretamente na sua frente. Esse procedimento pode ser realizado para qualquer modo de transporte (pedestre, bicicleta, automóvel) ou perfil de público (ex. contar apenas idosos ou crianças).

portal

A técnica é considerada de baixo custo, pois pode ser feita em um caderno ou utilizando um contador. A vantagem do contador está no fato de não precisar desviar a atenção da observação enquanto anota os dados: a informação já fica contida no instrumento, podendo ser conferida posteriormente. O tempo de contagem deve ser de 10 minutos, uma vez por hora, para se ter um padrão médio de apropriação do espaço público estudado.

contador

As informações da contagem são combinadas com outros dados obtidos em campo, inclusive como forma de validar outras informações. Estudos de Sintaxe Espacial costumam cruzar as informações das medidas sintáticas com fluxos de pessoas, para avaliar o quanto que a forma urbana está influenciando nos fluxos e deslocamentos humanos.

2- Mapear (Mapping)

Técnica de representar, em mapas temáticos, os dados de comportamento levantados em campo. É bastante usado para dados estáticos (onde há mais pessoas permanecendo sentadas ou em pé, gênero, idade, etc.).

É importante, para o observador, ter uma visão mais ampla possível do espaço estudado, para mapear as pessoas. Caso não possa ser feito em um único ponto, recomenda-se empregar duas ou mais pessoas para o mapeamento ou realizar pequenas caminhadas, para evitar não mapear grupos de pessoas que estejam em locais com campo visual restrito.

Os dados podem ser desenhados em um mapa impresso ou croqui do local, sendo assim uma ferramenta de baixo custo. No entanto, é possível importar as informações para uma base informatizada, a exemplo dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG), no qual é possível processar e combinar as informações para obter mais mapas temáticos. Há vários softwares SIG livres, como o QGIS, bastando haver alguém com conhecimento do programa.

mapping

3- Traçar os Deslocamentos (Tracing)

Consiste em traçar os percursos realizados pelas pessoas dentro do espaço estudado. É possível, através desta técnica, identificar padrões de fluxos , escolhas de direção, locais mais e menos usados para os deslocamentos, etc.

Os deslocamentos são desenhados em um mapa durante um período de 10 a 30 minutos, retratando as linhas de movimento. Em algumas situações, é difícil retratar precisamente o percurso, então pode-se adotar, de forma geral, uma setorização do espaço estudado e rastrear cada um individualmente.

Da mesma forma que o mapeamento, o rastreamento pode ser feito em um mapa impresso ou croqui, e as informações passadas para um software SIG.

rastreamento

4- Rastreamento (Tracking)

A técnica de rastreamento consiste em seguir algumas pessoas no espaço estudado, para obter informações como velocidade e atividades realizadas durante a rota. Os autores citam, como exemplo prático da aplicação dessa ferramenta, identificar os trajetos de ida e volta de uma determinada escola, com o objetivo de melhorar a segurança do trajeto ou propor outro mais seguro.

O rastreamento pode ser feito, assim como o mapeamento e o traçado de movimentos, utilizando um mapa impresso ou croqui. Também pode-se utilizar um aparelho GPS ou aplicativos de celular, para registrar o movimento, sendo assim  equipamentos que podem ajudar também a traçar os movimentos.

Aconselha-se manter uma certa distância e discrição ao acompanhar a rota das pessoas, para que estas não se sintam perseguidas, o que, além de comprometer o movimento natural da pessoa observada e a pesquisa, pode gerar situações de constrangimento e desconforto.

5- Procurar por Traços de Comportamento

Traços de comportamento são evidências físicas de que, naquele local, ocorre um fluxo significativo de pessoas. Os traços são observados em locais que, supostamente, não são destinados à caminhar, como grama, terra, etc.

Os traços de comportamento demonstram um potencial de movimento em um determinado lugar, mas que não foi contemplado no design do projeto do espaço público, cuja configuração (morfologia) criou caminhos mais complexos que os realizados pelos usuários. É comum encontrar trilhas de terra em praças, que podem indicar um fluxo maior de pessoas nessa trilha informal do que nos caminhos projetados.

traços

Esses caminhos podem ajudar a entender a dinâmica de fluxos e deslocamentos, padrões de comportamento e de interações sociais. Podem ser utilizados em projetos de requalificação de espaços públicos como alternativa mais coerente às necessidades dos usuários.

6- Fotografar

Fotografar os espaços públicos e seus usuários é uma das principais ferramentas utilizadas. A fotografia permite, além de ilustrar os padrões de comportamento, compor um registro social das atividades ali desenvolvidas. Também podem servir como informações complementares aos mapeamentos realizados.

Apesar de as câmeras semi profissionais e profissionais serem caras e pouco acessíveis, a maioria dos telefones celulares e smathphones atuais possuem uma câmera, cuja resolução pode ser de 3mb à 13mb, ou superior. Assim, é possível tirar fotos de qualidade com celulares que custem menos da metade de uma câmera.

vida_urbana

7- Manter um Diário

Apesar de as ferramentas já descritas poderem trazer uma série de dados importantes. No entanto, é difícil que, individualmente possam conter informações detalhadas. Assim, manter um diário é uma forma de anotar eventos, observações e garantir um suplemento qualitativo aos dados quantitativos.

Através das anotações, o pesquisador pode combinar e analisar as informações coletadas pelas outras técnicas, e obter informações e análises que não seriam possíveis de serem feitas isoladamente.

8- Testar Caminhadas

A técnica tem como objetivo simular a experiência de uso de um determinado espaço público. São escolhidas as principais rotas (que podem ser determinadas por mapeamento, linhas e movimento e rastreamento, por exemplo) usadas pelas pessoas, identificando o quão comprido é o percurso, a quantidade de atrativos ao longo do caminho, o tempo de espera para realizar o percurso. A caminhada pode ser registrada por mapas, fotos e vídeos.

Referências:

GEHL, J.; SVARRE, B. How to Study Public Life. Washington: Island Press, 2013.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s