Planejamento Urbano Sustentável: 6 Estratégias

Os desafios das cidades do século XXI exigem respostas dos urbanistas e gestores públicos para a criação de cidades mais humanizadas e sustentáveis. Este post traz algumas ideias e dicas de possíveis soluções que possam ser adotadas nas cidades para se ter um planejamento urbano mais sustentável.

1- Criação de Corredores Verdes Urbanos

Corredores verdes urbanos (CVU) são um conjunto de áreas verdes, dispostas no sistema de espaços livres públicos (ruas, praças, parques etc) e que estão, em sua maioria, conectados, de forma a atuarem como uma única grande área verde urbana. A criação de corredores verdes urbanos traz uma série de benefícios para as cidades.  Conforme Penteado e Alvarez (2007), Estes corredores têm objetivos ecológicos, culturais e estéticos, baseados em 5 ideias chave:

  • Linearidade, baseados em espaços de circulação lineares, a exemplo de ruas, avenidas, entre outros;
  • Conectividade, relativa ao potencial de ligação entre espaços livres públicos  (praças e parques), bairros, magnetos de atração, entre outros;
  • Multifuncionalidade, relativa ao potencial de uso misto no local (residencial, comercial, lazer, etc);
  • Desenvolvimento Sustentável, relativo aos benefícios ambientais, como redução da temperatura, aumento da permeabilidade do solo, entre outros;
  • Sistemas Lineares Integrados, relativo ao favorecimento à criação de uma rede integrada de mobilidade urbana.

Há outros possíveis efeitos positivos na criação de corredores verdes, como a manutenção do bioma local, com a preservação da fauna e flora nativa; melhoria da qualidade do ar, com o aumento da absorção de gases poluentes e aumento da umidade; viabilização da mobilidade a pé e por bicicleta e a criação de espaços de lazer e interação social.

Um exemplo é o projeto do corredor verde para a cidade de Cali, na Colombia. O projeto vencedor do concurso, feito pelos escritórios Espacio Colectivo Arquitectos e Opus, busca a criação de extensas áreas verdes lineares e conectadas, que integram espaços de lazer, cultura e uma ciclovia. O vídeo abaixo faz um breve resumo do projeto:

 

2- Hortas Urbanas

Caracterizam-se hortas urbanas como sendo o plantio de hortaliças, condimentos e ervas medicinais em algum espaço público ou privado urbano. Tendência mundial, já existem casos no Brasil.

Entre os principais benefícios, Abreu (2012) cita efeitos positivos ambientais e econômicos, como o sequestro de carbono (entre 17 e 19 toneladas) e o valor econômico da produção. Além disso, pode-se citar outros benefícios, como a subsistência para famílias carentes, criação de espaços de socialização e educação ambiental, e pode contribuir também para os corredores verdes urbanos citados anteriormente.]

As hortas urbanas podem ser plantadas em espaços livres públicos, como praças e parques, como também podem ser uma solução, em termos de planejamento, para os vazios urbanos e subutilizados, valendo-se da função social da propriedade, um dos princípios do Estatuto da Cidade.

O manual “Hortas Urbanas: Moradia Urbana com Tecnologia Social“, além de mostrar os benefícios da horta urbana, também traz um passo-a-passo de como montar a sua horta.

O vídeos abaixo explicam um pouco o funcionamento de uma horta urbana:

 

3- Habitações de Interesse Social em Áreas Centrais

Tradicionalmente, as habitações de interesse social são produzidas em áreas periféricas das cidades, por serem locais com terrenos mais baratos. No entanto, uma série de problemas são visíveis nesse modelo, como aponta Maia (2014): periferização, segregação socioespacial, precariedade de infraestrutura e acessibilidade.

Uma das possíveis soluções é a construção dessas habitações de interesse social em áreas centrais. Dentre os principais benefícios desta medida, pode-se citar:

  • Melhor integração dos moradores do conjunto habitacional com a cidade;
  • Otimização da infraestrutura urbana já existente;
  • Maior e melhor acesso às oportunidades urbanas (emprego, lazer, educação, etc.);
  • Contribui para evitar o esvaziamento e gentrificação de áreas centrais;

Para Maricato (2013), a efetivação da construção de habitações sociais em áreas centrais precisa de um conjunto de instrumentos legais regulatórios:

  • Maior aproveitamento do terreno para habitações;
  • Diversificação dos padrões de projetos arquitetônicos e urbanísticos;
  • Outorga gratuita do direito de construir (caso este seja oneroso);
  • Diversidade de parcerias, como a urbanização consorciada e o direito de superfície;
  • Diversidade de agentes promotores (empresas, cooperativas, associações, etc.);
  • Obrigatoriedade de unidades habitacionais para faixas de renda diferentes;
  • IPTU progressivo para imóveis ociosos.

O vídeo abaixo faz um breve resumo da aplicação de habitações de interesse social em áreas centrais:

 

4- Mobilidade Urbana Intermodal e Integrada

Já falamos neste post sobre os benefícios da mobilidade urbana ativa para as cidades. No entanto, dada a escala e o tamanho das viagens em grandes centros urbanos, a mobilidade ativa pode não ser capaz de suprir todas essas demandas de viagens.

Para Fragomeni (2012, p. 65), a “redução dos impactos negativos dos sistemas de mobilidade depende de uma visão sistêmica da cidade, que integre diversas iniciativas para otimizar o deslocamento de pessoas e mercadorias”. Assim, uma possível solução, portanto, seria integrar os modos de transporte não motorizados com o sistema de transporte público urbano.

O autor ainda lista que ações podem ser feitas para se obter uma melhor integração intermodal:

  • Estacionamentos integrados aos terminais de transporte coletivo;
  • Transporte público por demanda;
  • Restrições ao automóvel em áreas centrais;
  • Estacionamento vertical;

Outras soluções também podem ser empregadas, como integrar o espaço viário entre pedestre – bicicleta e bicicleta – transporte público; integrar bicicletários à terminais de transporte público, entre outros.

Dentre os benefícios desta integração, pode-se citar o melhor aproveitamento do sistema de transporte público urbano, redução de poluentes, redução no número de acidentes, melhoria da qualidade do ar.

O vídeo abaixo mostra um exemplo de como pode ocorrer a integração modal no dia-a-dia:

 

5- Otimizar a Densidade Urbana

De acordo com Acioly e Davidson (1998), a densidade urbana é um dos mais importantes indicadores para o planejamento urbano, e representa o total de habitantes ou edifícios em uma determinada área.

Silva et al. (2016) afirmam que a otimização da densidade urbana (tanto em termos de população como unidades habitacionais) reduzem os custos de urbanização per capita, otimizam o uso do solo urbano em termos de número de habitações – corroborando com o pressuposto supracitado de Maricato (2013) – e reduz os custos de construção de unidades habitacionais – o que seria uma estratégia interessante também para habitações de interesse social.

Pode-se citar outros aspectos positivos no aumento da densidade, como a otimização da infraestrutura urbana, otimização do sistema de transporte público (como é o caso de Curitiba) e potencialização da economia. No entanto, é preciso ter ciência de que a densidade excessiva pode acarretar em vários problemas, como sobrecarga de infraestrutura e congestionamentos, então é preciso encontrar a densidade ideal para o local a ser planejado. Uma dica é trabalhar coma densidade na escala humana, como afirma o arquiteto e urbanista Jan Gehl nesta entrevista.

No vídeo abaixo, uma entrevista com a professora Erika Kneib, da UFG, sobre densidade urbana:

 

6- Uso do Solo Misto

O uso misto é a combinações de diferentes usos no mesmo edifício. Geralmente, consiste num pavimento térreo de uso comercial e os demais pavimentos de uso residencial como mostra a figura abaixo:

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Exemplo de edifícios de uso misto. Fonte: https://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/incentivo-ao-uso-misto/

Dentre os benefícios do uso do solo misto, destacam-se a maximização e racionalidade da utilização dos serviços urbanos, como o transporte público ; redução das distâncias entre casa – trabalho e casa – lazer; redução da dependência do automóvel, redução da criminalidade e melhor uso dos espaços livres públicos.

O plano diretor de São Paulo ainda diz que esta estratégia pode ser combinadas com outras para um melhor resultado, como a fachada ativa (abertura da fachada térrea para população, com usos não residenciais) e a fruição pública (uso público de área do pavimento térreo que não pode ser fechada com edificações, instalações ou equipamentos).

O vídeo abaixo explica um pouco como funciona o suo misto:

 

Para que estas ideias aqui cotadas sejam eficientes, é necessário um pensamento sistêmico, ou seja, cada parte ou elemento da cidade é importante e precisam estar conectadas entre si, de forma que este conjunto atue como um grande sistema urbano. AS estratégias citadas precisam estar integradas e conectadas, de forma que atuem em conjunto e cooperem entre si. Além disso, são necessárias politicas públicas de educação para que haja a conscientização da população (educação ambiental, educação no trânsito, etc.). Assim, tais ideias terão apoio da sociedade e poderão, de fato, ser efetivadas da melhor maneira possível, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida urbana.

6estrategias

 

Referências:

ABREU, A. M. R. S. Hortas urbanas – contributo para a sustentabilidade. Caso de estudo: “Hortas comunitárias de Cascais”. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa, 2012.

ACIOLY, C.; DAVIDSON, F. Densidade Urbana: Um Instrumento de Planejamento e Gestão Urbana. Rio de Janeiro, Mauad, 1998.

FRAGOMENI, G. Planejamento e mobilidade urbana: uma breve análise da produção científica internacional. Revista dos Transportes Públicos, v. 34, n. 2, p. 57-76, 2012.

MAIA, D.S. Habitação popular e o processo de periferização e de fragmentação urbana: uma análise sobre as cidades de João Pessoa-PB e Campina Grande-PB. Geosul, v. 29, n. 58, p 89-113, 2014.

MARICATO, E. Habitação social em áreas centrais. Óculum Ensaios, n. 1, p. 13-24, 2013.

PENTEADO, H. M.; ALVAREZ, C. E. Corredores verdes urbanos: estudo da viabilidade de conexão das áreas verdes de Vitória. Paisagem e Ambiente, n. 24, p. 57-68, 2007.

SILVA, G. J. A.; SILVA, S. E.; NOME, C. A. Densidade, Dispersão e Forma Urbana: Dimensões e limites da sustentabilidade habitacional. Arquitextos, v. 16, n. 189.07, 2016.

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